Do outro lado do oceano: uma história de travessia, Direito e recomeço
Advogada, economista e coautora de “Do Outro Lado do Oceano”, Karla Nascimento relata sua mudança para Portugal, a reconstrução profissional e os vínculos com o Amapá.
Ir para o texto completo ↓
Há histórias que começam muito antes do acontecimento que parece marcá-las. A minha relação com a travessia começou antes de Portugal, antes da advocacia exercida em outro país e, de certa forma, antes mesmo de eu nascer.
Meus pais migraram para o Amapá em busca de melhores condições de vida. Vieram de outro lugar, como tantos brasileiros que deixam a terra conhecida porque compreendem que permanecer nem sempre é a melhor forma de proteger aquilo que amam. Cresci ouvindo e observando essa história familiar e aprendi, ainda muito cedo, que mudar de lugar não significa necessariamente abandonar as próprias raízes. Às vezes, mudar é justamente a maneira encontrada para preservá-las e construir novas possibilidades.
Foi no Amapá que a minha história ganhou forma. Ali construí minha família, minha carreira, minhas relações profissionais e grande parte das referências que ainda hoje fazem parte de quem sou. Minha formação começou pela Economia e depois encontrou o Direito. Ao longo dos anos, também me dediquei à gestão, à docência e à mediação e arbitragem. Trabalhei no serviço público, atuei na Assembleia Legislativa do Amapá, fui professora da Faculdade FAMAP, advogada e empreendedora. Antes de Portugal, portanto, eu já havia construído uma vida profissional bastante diversificada.
Talvez essa multiplicidade explique um pouco da profissional que me tornei. Nunca enxerguei o trabalho apenas como uma forma de obter renda, o trabalho sempre esteve ligado à minha identidade, à minha independência e à sensação de estar construindo alguma coisa. Empreender também fazia parte da minha maneira de viver. Ao longo da vida, tive negócios em áreas diferentes e aprendi que empreender é conviver diariamente com decisões, riscos, responsabilidades e recomeços.
Eu não sabia, naquele momento, que ainda precisaria aprender uma das formas mais difíceis de recomeçar: aquela que acontece longe de casa.
A DECISÃO DE ATRAVESSAR
Portugal não nasceu na minha vida como uma fuga, era um projeto. Em 2021, eu já pensava na mudança com planejamento, tinha uma ideia de quando partiria, como organizaria a vida e qual seria o momento mais adequado para que meus filhos também estivessem preparados. O plano era esperar alguns anos, havia uma lógica por trás da decisão e eu acreditava que teria tempo para organizar tudo com calma.
A vida, porém, nem sempre respeita os nossos cronogramas. A realidade que eu vivia no Amapá começou a mudar, a violência deixou de ser uma preocupação distante e passou a fazer parte da experiência cotidiana. Aquilo que antes parecia uma possibilidade futura tornou-se uma necessidade presente, o que estava planejado para muitos anos depois precisou acontecer imediatamente. Antecipei minha mudança em sete anos.
Em pouco tempo, precisei desmontar uma vida que havia levado anos para construir, vendi tudo o que tinha. E cada venda tinha um significado que ia muito além do valor financeiro, eu sabia que não estava apenas negociando bens; estava encerrando uma etapa da minha história para tentar proteger outra.
Parti levando meus filhos, minhas memórias, minha formação profissional e uma fé que, naquele momento, foi maior do que qualquer certeza.
Cheguei a Portugal como chegam muitos imigrantes: com expectativas, mas também com medo; com planos, mas sem garantias; com uma história construída, mas diante da necessidade de começar novamente.
É difícil explicar para quem nunca viveu uma mudança desse tamanho o que significa chegar a um país estrangeiro depois de já ter uma identidade profissional consolidada. No Brasil, eu sabia quem era profissionalmente, sabia onde estava meu lugar, conhecia as instituições, as pessoas, os caminhos e a linguagem do meu trabalho. Em Portugal, precisei reaprender.
QUANDO O TRABALHO DEIXA DE EXISTIR COMO IDENTIDADE
Eu sempre fui uma mulher muito ativa, o trabalho ocupava grande parte da minha vida e, durante muitos anos, também funcionou como uma espécie de território seguro. Eu sabia produzir, resolver problemas, tomar decisões e assumir responsabilidades. Estar ocupada era uma maneira de manter o controle sobre a própria vida e quando cheguei a Portugal, esse controle desapareceu.
O recomeço trouxe um silêncio que eu não conhecia. Sem o ritmo profissional que havia me acompanhado durante tantos anos, algumas questões que eu havia mantido ocupadas começaram a aparecer. Quem sou eu quando não estou trabalhando? O que sobra quando desaparecem o reconhecimento, o cargo, a rotina e o lugar profissional que construí durante tantos anos?
Foi um período difícil e foi também um período de confronto comigo mesma. Passei por uma depressão e precisei procurar ajuda profissional. O processo de reconstrução não aconteceu de uma vez, não houve uma manhã em que tudo simplesmente voltou ao lugar. Houve dias difíceis, pequenos avanços, recaídas emocionais, aprendizado e, principalmente, a necessidade de aceitar que pedir ajuda não diminuía a minha força. Essa foi uma das maiores mudanças que vivi.
Durante muito tempo, eu havia associado força à capacidade de suportar. Em Portugal, precisei compreender que também existe força em reconhecer limites, em parar, em pedir ajuda e em permitir-se reconstruir. Não voltei a ser exatamente a mulher que havia saído do Amapá e hoje considero isso uma conquista.
ANTES DE SER ADVOGADA, EU ERA IMIGRANTE
A reconstrução profissional foi outra história. Eu continuava sendo advogada, minha formação não havia desaparecido, minha experiência também não, mas em Portugal, antes de ser reconhecida pela profissão que exercia, eu era uma estrangeira tentando encontrar espaço em uma realidade profissional diferente.
Existe uma dimensão da imigração que não aparece nos documentos: a sensação de precisar provar novamente aquilo que você já sabe que é capaz de fazer. Foi nesse período que precisei me reinventar para sobreviver. Tornei-me motorista de aplicativo.
Essa experiência poderia ser contada apenas como uma fase difícil, mas hoje prefiro compreendê-la como uma parte importante da minha formação humana. Eu nunca tive vergonha daquele trabalho, o que doía era outra coisa: a distância entre aquilo que eu havia construído profissionalmente no Brasil e o lugar que ocupava naquele momento.
Eu tinha formação em Economia era Advogada, tinha experiência profissional e empresarial, mas estava dirigindo um carro enquanto tentava encontrar uma porta de entrada para a advocacia portuguesa. Foi justamente dentro daquele carro que uma das portas se abriu.
Durante uma corrida, conheci a advogada Isabel Pimenta. O encontro poderia ter sido apenas mais uma corrida entre tantas outras, mas ela ouviu a minha história e não enxergou somente a motorista, enxergou a profissional que estava por trás daquela circunstância. Isabel me disse que me ajudaria a advogar em Portugal.
A partir dela, conheci muitos outros advogados que hoje faz parte do meu círculo de amigos e parceiros de profissão, que me apresentaram aspectos práticos da advocacia portuguesa onde nenhum manual seria capaz de ensinar daquela maneira: procedimentos, linguagem forense, dinâmica institucional e cultura profissional. Esses encontros foram decisivos.
Porque, às vezes, uma carreira não é reconstruída apenas por diplomas ou oportunidades. Algumas vezes, ela é reconstruída por pessoas que decidem acreditar em nós antes que o restante do mundo volte a fazê-lo.
A ADVOCACIA DEPOIS DA TRAVESSIA
Foi assim que retornei à advocacia, mas não voltei sendo exatamente a mesma advogada. A experiência de ser imigrante passou a fazer parte da maneira como compreendo o Direito e, especialmente, o Direito de Imigração.
Hoje, atuo em Portugal principalmente nas áreas de imigração e nacionalidade, acompanhando processos administrativos e judiciais relacionados à regularização de estrangeiros, residência, reagrupamento familiar, nacionalidade portuguesa e questões que envolvem a relação do imigrante com a administração pública portuguesa.
É uma área que exige estudo permanente. A legislação migratória muda, os procedimentos administrativos mudam, os tribunais constroem novos entendimentos e as instituições também passam por transformações.
Mas existe algo que os livros não ensinam completamente. O advogado que trabalha com imigração precisa compreender que, para o cliente, um processo não é apenas um processo; uma autorização de residência pode representar a possibilidade de permanecer com os filhos; um pedido de reagrupamento pode significar reunir uma família; um processo de nacionalidade pode representar a continuidade de uma história familiar iniciada muitas gerações antes.
Eu consigo compreender isso de uma maneira muito particular porque, antes de ser a advogada que recebe essas pessoas, também fui a pessoa que precisou aprender a viver em outro país. A minha experiência migratória não substitui a técnica jurídica, mas ela ampliou minha capacidade de escuta e talvez essa seja uma das maiores transformações que Portugal produziu na minha maneira de exercer o Direito.
DA ADVOCACIA AOS NOVOS NEGÓCIOS
Minha trajetória profissional em Portugal também não parou na advocacia. A formação em Economia voltou a ganhar espaço à medida que comecei a olhar para Portugal não apenas como o país onde vivo, mas como um ambiente de oportunidades para brasileiros que desejam construir negócios, adquirir patrimônio ou investir.
Passei a atuar também como consultora na área de investimentos em Portugal, aproximando duas áreas que sempre fizeram parte da minha formação: o Direito e a Economia. Essa atuação nasce de uma percepção muito prática. Muitas pessoas querem investir em Portugal, mas não sabem por onde começar. Comprar um imóvel, abrir uma empresa ou iniciar um negócio em outro país envolve muito mais do que identificar uma oportunidade. É preciso analisar números, legislação, mercado, tributação, riscos, localização, viabilidade e estratégia. É nesse espaço que pretendo continuar construindo novos projetos.
Eu aprendi que recomeçar não precisa significar abandonar aquilo que você sabe fazer. Às vezes, significa olhar para o que você já aprendeu e descobrir novas formas de utilizar esse conhecimento.
O LIVRO QUE NASCEU DA TRAVESSIA
Foi nesse contexto que surgiu “Do Outro Lado do Oceano”. Ser uma das coautoras dessa obra tem um significado especial porque não escrevi apenas sobre imigração, escrevi sobre uma experiência que transformou minha própria vida.
No meu capítulo, procurei registrar aquilo que muitas vezes não aparece quando alguém conta que “foi morar em Portugal”: o medo, a ruptura, a solidão, a perda temporária de identidade profissional, a necessidade de trabalhar em outra atividade, os encontros que mudaram o caminho e a reconstrução que veio depois.
O livro fala de pessoas que atravessaram fronteiras, mas cada história revela uma travessia particular. A minha começa antes do Atlântico, na história dos meus pais e na maneira como aprendi, desde cedo, que deslocamento também pode significar busca por dignidade e por uma vida melhor.
Por isso, o título do meu capítulo, “Antes do Atlântico, eu já era travessia”, talvez seja a melhor síntese daquilo que vivi. Quando escrevi essas palavras, compreendi que Portugal não foi a primeira grande mudança da minha vida. Foi apenas a mais visível.
CONTINUAR PERTENCENDO
Morar em Portugal não diminuiu minha ligação com o Amapá. Há uma distância geográfica considerável entre Braga e Macapá, mas algumas coisas não são medidas em quilômetros.
Minha história profissional começou no Amapá. Minha família está ligada àquele lugar, foi ali que construí boa parte da mulher e da profissional que sou hoje. Por isso, retornar ao estado para falar sobre o livro não significa simplesmente apresentar uma obra publicada em Portugal, significa voltar ao ponto de onde saí e compartilhar o que aconteceu depois.
Também quero que esse retorno tenha significado para além da minha própria história. No lançamento do livro em Macapá, decidi destinar a receita da venda dos exemplares do evento à Casa Amanhecer, instituição que apoia pacientes oncológicos do Amapá que precisam se deslocar para São Paulo em busca de tratamento. É uma maneira de transformar uma conquista pessoal em algo que possa alcançar outras pessoas.
Talvez porque, depois de atravessar tantas mudanças, eu tenha aprendido que aquilo que construímos ganha outro sentido quando também pode servir.
O QUE FICOU DEPOIS DA TRAVESSIA
Hoje, quando olho para a mulher que saiu do Amapá, percebo que algumas coisas ficaram para trás. A cidade, determinadas rotinas, uma posição profissional já consolidada, uma vida que eu conhecia profundamente, mas outras coisas atravessaram comigo, como: minha formação, minha família, minha fé, minha capacidade de trabalhar, minha disposição para empreender, minha identidade amapaense, e, principalmente, a compreensão de que uma vida pode ser reconstruída mais de uma vez.
Não acredito que imigração deva ser romantizada. Existe beleza em conhecer um novo país, aprender uma nova cultura e construir novas possibilidades, mas existe também o luto por aquilo que se deixa, existe a solidão, existe o medo, existe a necessidade de começar novamente em circunstâncias para as quais ninguém consegue estar completamente preparado.
A minha própria história me ensinou isso. Também me ensinou que não precisamos sair de uma experiência de recomeço sendo a mesma pessoa que entrou nela.
Hoje sou advogada em Portugal, mas não cheguei até aqui apenas por causa do meu diploma de Direito. Cheguei também pela experiência de ter sido imigrante, pela humildade que precisei aprender, pelas pessoas que abriram portas, pelos momentos em que precisei trabalhar fora da minha profissão, pelos erros, pelo estudo, pela persistência e pela coragem de continuar mesmo quando ainda não conseguia enxergar o resultado, mas principalmente cheguei, porque sou uma filha amada de Deus e Ele me abençoa todos os dias.
Sou advogada e economista e continuo levando essas formações para os meus projetos. Sou empreendedora e continuo pensando em negócios. Sou mãe e muitas decisões que tomei ao longo da vida foram atravessadas pela responsabilidade de construir um futuro melhor para os meus filhos. E sou amapaense, e essa última parte não ficou do outro lado do oceano, ela veio comigo.
Talvez seja essa a maior compreensão que a travessia me trouxe: nós podemos mudar de cidade, de país, de profissão e até de maneira de enxergar a própria vida sem precisar abandonar a nossa origem. A travessia não apaga a margem de onde partimos. Ela acrescenta outra margem à nossa história.
A travessia continua. Não como aquela que um dia me obrigou a deixar tudo para trás, mas como parte de uma vida que ainda está sendo construída. E, olhando para o caminho percorrido, posso dizer aquilo que escrevi no final do meu capítulo: valeu a pena atravessar. Não porque tenha sido fácil, mas porque, do outro lado do oceano, encontrei uma mulher que eu ainda não conhecia.
Sobre a autora — apresentação da redação
Karla Waleska Costa Guedes Nascimento é advogada e economista com trajetória profissional no Amapá e em Portugal. Conforme o currículo encaminhado à redação, é bacharela em Direito e em Ciências Econômicas pelo Centro de Ensino Superior do Amapá (CEAP), com pós-graduações em Gestão e Metodologia do Ensino Superior e em Mediação, Conciliação e Arbitragem.
O currículo registra sua atuação como economista na Prefeitura de Santana, assessora parlamentar jurídica na Assembleia Legislativa do Amapá, professora da FAMAP e juíza arbitral, além de experiência em gestão empresarial. Em Portugal, informa manter escritório em Braga desde agosto de 2024, atuar como professora/formadora na COMUNILOG e desenvolver consultoria de investimentos e negócios. Seus registros profissionais são OAB/AP nº 3.541 e Ordem dos Advogados de Portugal nº 68077P.
O site profissional da advogada confirma o atendimento em Braga e a atuação em imigração, vistos, autorização de residência, nacionalidade portuguesa, procedimentos junto à AIMA e medidas judiciais em matéria migratória. A experiência pessoal de imigração integra a apresentação pública de seu trabalho.
Canais profissionais: site advkarlanascimento.com, Instagram @advkarlanascimento e WhatsApp +351 910 427 787. Os links estão disponíveis abaixo. Formação e histórico curricular: documento fornecido à redação. Atuação e canais profissionais: site da advogada e perfil público consultados em 7 de outubro de 2026.
Artigo no portal da OAB/AP · referência encaminhada à redação ↗
